sexta-feira, 1 de abril de 2016

Sobre cafés, respeito e fraternidade.


Olá Leitor!  Aqui estou , depois de uns tempos de silêncio e reflexões, para tratar de um tema que tem me circulado há algum tempo.  Hoje, no entanto, vivi uma situação que me inspirou, enfim, a escrever este texto.

Fui tomar um café, na cafeteria de um movimentado posto de gasolina, em Campinas e onde  tenho ido com certa regularidade.  Sempre fui atendido pelas baristas com presteza, gentileza e simpatia. O ambiente físico do café é muito clean. Compõe-se , na parte inferior,de quatro mesas altas com duas banquetas cada uma e mais três mesas com sofá para quatro a seis pessoas cada, em estilo norte americano, tudo isso envolvendo em formato de “L” ao balcão de serviços, vitrines e cozinha. Para chegar até ele, passa-se pela área da loja de conveniência onde, ao final encontram-se as escadas que vão aos salões de baixo, onde fica o referido café e o de cima. Não vou descrever a parte superior, pois a cena que vou contar transcorreu neste ambiente que acabei de apresentar.

Encontrava-me sentado à mesa com sofá, no vértice do “L”, quando três pessoas, duas senhoras e um senhor, todos na faixa dos 60 ou mais anos, chegaram.  As outras mesas também estavam ocupadas. Apenas uma das banquetas altas estava desocupada.

Gentilmente ofereci o lugar que ocupava ao pequeno grupo e me desloquei para a banqueta à frente.

Seguiu-se o tempo, normalmente.  Cada qual, dentro daquele ambiente fazendo o que lhe interessava: tomando café, conversando, lendo, trocando mensagens, enquanto as funcionárias cuidavam de seu serviço que, neste momento, consistia em lavar a louça. Essa ação teria me passado desapercebido, não fosse pelo rompante e estrondoso grito do senhor que ocupava a mesa que cedi: “QUE BARULHO INFERNAL! SERÁ QUE VOCÊS NÃO SABEM TRABALHAR EM SILÊNCIO? FICAM INCOMODANDO TODO MUNDO. ISSO AQUI ESTÁ PARECENDO A (falou o nome de uma confeitaria que fica localizada na diagonal dessa cafeteria)”.

Esse troado assustou a todos no café, mas, acredito que por uma reação quase reflexa, alguns outros clientes riram brevemente.

As funcionárias, desconcertadas e humilhadas se entreolharam e baixaram a cabeça, continuando seu trabalho, sendo que, do canto do olho de uma delas, percebi uma lágrima descendo.

Observador por natureza e por profissão, consegui captar minúcias dessa cena que, acredito, poucos ali conseguiram notar ou mesmo valorizar.  Havia acontecido, entre cafés, leituras e conversas, um crime de desrespeito, de assédio moral. Um ser humano havia sido ferido pela grotesca fala de outrem.

Não sou dado a atos heroicos, mas aqueles que me conhecem sabem o quanto me incomodo com as injustiças.  O meu café literalmente “entalou” na garganta enquanto meu cérebro se pôs a trazer centenas de hipóteses acerca do ocorrido.  Voltei o foco para a mesa da ponta, onde estava o grupo, rindo e conversando frouxamente após o estrondo.  Nem parecia que dali tinha saído uma rajada de rispidez e grosseria tão intensos.  Apurei meus sentidos de observação e vi, quando a funcionária deixou o posto e foi para a loja, fora do café, enquanto uma terceira veio ficar em seu lugar.  Dentro das variadas hipóteses que pensei, estava a possibilidade daquele homem ser o dono do espaço.  Mesmo assim, não justificava a forma como advertiu as moças pelo dito barulho.  Tratei de buscar a confirmação dessa tese e, na verdade tratava-se de um cliente, assim como eu e os demais.

Aqui inicio minha reflexão sobre respeito humano e fraternidade.  Disse no início que o assunto me ronda há tempos, sempre em situações muito semelhantes, onde há um prestador de serviços e alguém que é o cliente ou o alvo desse serviço.  Alguma coisa acontece e o funcionário é humilhado.  Certa vez, estava eu com um grupo de pessoas num restaurante onde um senhor toca violão e canta, indo de mesa em mesa.  Algo bastante tradicional das cantinas italianas do Bixiga,em São Paulo, desta vez, porém, numa pizzaria em Campinas.  Uma das pessoas da mesa mandou chamar ao gerente e teceu uma série de comentários e reclamações absurdas sobre o cantor.  Destratou-o quando veio à mesa e depois ainda despejou uma série de impropérios entre os comensais acerca alguém que estava realizando o seu trabalho.  Nessa ocasião, entristeci e calei.  Assim como em outras tantas que vi acontecer e também entristeci e calei, pois me fere perceber o mundo como um lugar onde seja tão difícil fazer uso do respeito pelo outro, especialmente quando esse outro apenas e tão somente está realizando seu trabalho.  Entristeço ao ver como pessoas que são intelectualizadas, cultas, viajadas, criadas num referencial moral cristão (como é o caso da maioria de nós) e que se dizem educadas, conseguem humilhar o próximo sem a menor dor na consciência.

Entendo que somos todos seres em evolução, desde o mais humilde ao mais letrado, desde o mais carente ao mais abastado, todos, indistintamente na mesma condição de aprendizes e transeuntes do tempo que chamamos contemporaneidade.

Essa condição “transeunte” não condiz com os preconceitos, as diferenças, as classificações (quando usadas no sentido de exaltação/humilhação), mas faz perceber que se hoje estou numa determinada condição, amanhã poderei ocupar o papel oposto.  E essas mudanças tem se processado tão rapidamente que num piscar de olhos você se vê na situação ou condição à que criticava, rechaçava ou humilhava.  Tantos ensinamentos antigos e exemplos atuais mostram isso!

Enfim, todos cantam e declamam a fraternidade, pedem a fraternidade, pregam a fraternidade, mas, em pequenas situações ferem seus princípios e mostram uma segregação que não pode mais ter lugar em nosso mundo.

Fraternidade, palavra que significa irmandade, nos coloca frente a frente com a realidade de que somos filhos de um mesmo Criador, independente da religião que se professa, da orientação sexual a que o desejo responde, da posição econômica ou profissional que se  ocupa.  Fraternidade implica efetivamente ver o outro como igual, criado igual e com igual destinação.  Transeunte como eu, desta vida, deste momento, talvez em condição material diferente, mas não diferente nas aspirações de felicidade.  Logo, entendo que todos, indistintamente, são merecedores do mais profundo respeito pela coragem e ousadia de serem transeuntes buscadores da felicidade.   São irmãos no caminho, na existência, nesta escola onde, hora aprendemos, hora ensinamos. Nesta condição, somos todos merecedores de respeito e igualmente responsáveis por ofertá-lo ao próximo.  Quando isso não acontece, estamos falhando no nosso princípio mais básico, mais natural que diz que pertencemos a uma mesma espécie: HUMANA.

Pois é, Leitor.  Assisti a mais uma cena onde a gente se envergonha de ser humano.  Cena simples, corriqueira.  Mas uma cena dessas que mostra que se ainda não conseguimos tratar uma funcionária de café como igual, com o respeito que merece, como pretendemos superar as guerras, os fratricídios,os genocídios, a fome, os preconceitos?

Dessa vez, considerei que entristecer e calar não ajudaria. Tentei esclarecer, fazê-lo perceber que fora muito agressivo e desrespeitoso.  A receptividade do pequeno grupo, como de se esperar, foi péssima. O desenrolar dessa história não foi um “barraco”, como muitos possam imaginar, embora toda a cena e ele, particularmente, conspirassem a favor disso. Num lampejo, lembrei que, apesar de desconectado do sentimento fraterno, também aquele homem é um transeunte, um aprendiz, merecedor de respeito. Minha forma de respeitá-lo, naquele momento, foi silenciar e seguir meu caminho, esperando que ele e suas companheiras reflitam e entendam o que aconteceu e como aquilo afetou a todas as pessoas que ali estavam. 

Meu coração se acalmou quando, ao terminar de pagar minha conta, as funcionárias do café, inclusive aquela cuja lágrima correu, me ofereceram seus sorrisos, não só dos lábios, mas dos olhos e do coração, sorriso de irmãs que se viram reconhecidas na fraternidade e respeitadas. Uma delas disse “muito obrigado!”, acho que pelo pagamento da minha conta... Não sei.  O que sei, Leitor, é que não sou dado a atos heroicos, embora as pessoas que me conhecem saibam que não gosto de injustiças. Se de alguma forma consegui fazer aquelas moças se sentirem respeitadas, pertencentes à nossa condição humana e fraterna, se de alguma forma o agressor refletir e não mais fizer isso, se ele um dia se integrar a essa grande irmandade que todos somos, ajudei um pouquinho o mundo a chegar mais perto daquilo que consideramos ideal pra sermos felizes.

Um comentário:

  1. Daniel Rodrigues2 de abril de 2016 14:05

    Muito pertinente, real, e atual seu comentário, afinal estamos diante da necessidade de cada vez mais sermos ouvidos e especialmente acolhidos ...Parabéns pelo Post !!! Orgulho total !!

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