sexta-feira, 3 de julho de 2015

Corações Devastados



Olá leitor!  Bom escrever pra você novamente!

O tema que escolhi abordar hoje é fruto de uma sequência de sessões de psicoterapia com mais de um paciente.  O ponto comum dessas pessoas é a dificuldade em estabelecer e manter relacionamentos afetivos genuínos.  Também, de diferentes situações, inclusive minhas, onde o vínculo, independente do tipo, fica comprometido por conta da inabilidade que, em muitos momentos, todos manifestamos.

Como muitos sabem, de alguns anos para cá tenho me ocupado de estudar o amor, tarefa que, a cada dia, me revela algo novo, notável, surpreendente. Óbvio que num pequeno post do blog será impossível abordar tantas questões que constituem o amplo e infindável universo dessa força poderosa que é o amor, porém, leitor, neste vou falar de assuntos como investimento, perdas e lucros, entrega, transformações...

Vou iniciar com um breve resumo de uma tragédia grega: Medeia, de Eurípedes.  

Conta a história que Jasão, o “herói”, e uma seleta tripulação embarcaram no “Argo”, uma nau construída especificamente para essa grande viagem e missão e deixaram a Tessália, para  “resgatar” o velo dourado que se encontrava escondido numa gruta na Cólquida, às margens do Mar Negro, onde permanecia  protegido por um dragão insone.

Depois de muitas aventuras durante a jornada, que não nos interessam neste momento, os Argonautas chegaram por fim à Cólquida, reino de Etes, pai de Medeia, a princesa feiticeira.

Etes não se recusou entregar o velo para Jasão, mas impõs-lhe algumas tarefas para que  conquistasse o direito de levá-lo embora.  Medeia, no entanto, sabia que as tarefas propostas resultavam na morte de Jasão, por quem se apaixonara e decidiu ajudá-lo.  Jasão percebeu isso e como também tinha se apaixonado, prometeu casamento à princesa, recebendo em troca os segredos para que superasse as provas impostas e vencesse o dragão insone.

Medeia, seduzida por Jasão e sua promessa, traiu ao pai e a seu povo e fugiu da Cólquida com os Argonautas, levando o velo dourado e o seu irmão, o príncipe Absirto, a quem mandou matar,  esquartejar e lançar os pedaços ao mar para escapar da perseguição de seu pai, o rei Etes.

Já na Tessália, Medeia e Jasão passaram a viver num castelo onde, durante um tempo, experimentaram uma vida amorosa da qual nasceram três filhos, ainda que ele não tivesse cumprido a promessa de casar-se com ela.

Passado mais um tempo, Jasão anunciou seu casamento com Creusa, a jovem e bela princesa de Corinto.

Medeia, com o coração devastado, envenenou os filhos de Jasão, matou Creusa e seu pai, Sísifo, encenando, nesta tragédia, a maior vingança que se poderia realizar para com um homem.

Esse mito, certamente já foi muito explorado, inclusive e especialmente ao olhar da Psicanálise, abrindo compreensões diversas acerca de cada personagem envolvido.

Pois bem, leitor, embora não pareça, é uma história de relacionamento amoroso, de vínculos afetivos.  Sim, há o amor permeando o entrelaçamento dessas pessoas, acrescido, logicamente, de outros interesses.  O mito revela o quanto pessoas sucumbem a interesses diversos que corrompem o amor.

Nessa história existem muitos interesses: a conquista de um prêmio e, por consequência, de um status (Herói); a fuga do controle paterno, a possibilidade de experimentar novas aventuras, conhecer lugares novos; a oportunidade de uma nova vida e, todos se sobrepõem ao amor.

Esses interesses ligados à história contada são representantes simbólicos de inúmeros outros que poderíamos elencar. O importante é entendermos que, todos os tipos de interesses que usam a máscara do amor para atingir seus objetivos, são na verdade manifestações do ego, onde residem, muitas vezes, a insatisfação, a inveja, a crueldade, o orgulho, a cupidez, o egoísmo, a ganância. Também no ego residem bons propósitos, porém, a escolha do que motiva cada uma das ações é exclusivamente nossa.

Estará pensando o leitor: como pode o amor conter esses motivadores tão ruins?  O amor não é um sentimento sublime? Superior?

Você está certo, leitor!  Porém, o ser humano usa a máscara do amor (pensando que é amor) como a forma mais rápida e fácil de conquistar seus objetivos.  Essa máscara não é o amor, mas uma imitação dele.

Algumas falas e atitudes das pessoas eventualmente demonstram quando há máscara em cena.   Falas como “investir no relacionamento”, “perder ou ganhar tempo na relação”, “acertar ou errar nesta ou naquela fórmula para manter a relação”, enfim, atitudes que revelam um plano onde efetivamente se espera um retorno ou lucro, não tem o amor como premissa para a relação.  E não falo aqui somente do amor parceria afetivo sexual.  Estou falando de todos os níveis de vínculos amorosos, que vão da parentalidade e da amizade até a parceria afetivo sexual.

O amor, amigo leitor, é uma entrega, uma construção feita em conjunto. As pessoas envolvidas nessa construção oferecem o material e a mão de obra para construir a relação. O alicerce dessa construção tem que ser autêntico, real, para sustentar tudo o que virá sobre ele, já que existirão coisas boas e ruins, alegrias e tristezas, felicidades e percalços variados. 

Um dos ensinamentos que temos no Cristianismo é que “o amor cobre a multidão dos pecados”, ou seja, supera nossas mazelas.  Eu entendo que ele sustenta nosso desejo sincero de sermos melhores, protege contra as intempéries dos maus sentimentos vindos de dentro e de fora e por fim, recobre, sim, a tudo que foi colocado de coração nessa construção, como se fora uma brilhante coroa, uma conclusão da obra.  O amor é a casa toda, desde o alicerce até o telhado.  Essa obra, que temos como um ideal internalizado em nós, já que nascemos todos para amar, permanece em construção continua até que determinemos seu fim, o fim de uma relação amorosa. Acredito, leitor, que você tenha percebido que quando essa construção é genuína, é difícil terminar, pois permanece em estado de acabamento, manutenção,  aperfeiçoamento. Há sempre algo novo para colocar nessa construção e, penso que o ideal esperado de nós é que um dia ela seja uma grande, uma imensa mansão onde caiba toda a humanidade.

Mas vamos parar de “viajar” e voltar à máscara do amor.  Essa não se sustenta. Cai em algum momento e acaba por revelar o sentimento e desejo original oculto pelo ego.  Quando isso acontece, a construção desaba e o que resta é a devastação.

Medeia não é uma vilã. Nem Jasão.  São corações devastados que se deixaram levar pelas máscaras.  São corações que sofreram com uma construção que começou errada e não se concluiu.  Também não são vítimas, mas são corresponsáveis por aquilo que deixaram de entregar, de oferecer.  Fizeram investimentos e esperavam colher juros e dividendos vindos do outro.  As ações de Medeia na forma de traições e assassinatos nada mais foram do que as quedas das máscaras usadas em cada vínculo, em cada relação.

Logo, relações onde o ego espera lucro com o investimento, tende a haver perdas incontáveis.  A seguir, movido pelas perdas, o ego busca reparação usando como recursos, infelizmente, a vingança e depois a culpa.  Pois é, leitor, devastação gerando devastação.
Em tempos atuais as pessoas visam primeiro o que se pode ganhar e se o investimento ou tempo “gasto” num relacionamento valerá a pena.  Ficar tornou-se a opção indicada, já que não pede nada (nem sequer uma identidade!) e também não se dá nada. Não há troca, não há entrega.  Só um aparente ganho pelo prazer.  Não há comprometimento de se construir efetivamente uma relação com tudo o que está implicado nisso, ou seja, os bons e maus momentos que farão parte dessa construção.  A simples hipótese de que pode haver dissabores no meio do caminho já marca a decisão pelo não compromisso.  Aí se instala a máscara. Quero lembrar que amizade é uma forma de relação. Nem isso as pessoas estão sabendo construir. Preferem apenas ficar.

Note, leitor amigo, que não estou criticando a modalidade ficar e nem bancando o puritano careta.  Estou pontuando o quanto nos deixamos conduzir por egos que se permitem distorcer valores importantes. No nosso caso (Brasil) a cultura primitiva do “sempre levar vantagem” acabou mais do que cristalizada em nós.  E, se alguém vai levar vantagem, por consequência, outro alguém sairá perdendo. Sim, perdem as relações, perdemos todos, perde o amor.  Corações e corações devastados pululam por aí, deixando a dor e a frustração como marca registrada dos muitos vínculos que não “renderam” tudo o que deles se esperava.  

E então, uma vez devastado, esse coração pede reparação, pede justiça! Precisa acontecer alguma coisa para que continue a existir vida ali. Brota o desejo de vingança, um espinheiro que machuca mais a quem lhe oferece o campo do que aquele a quem ele é dirigido. Mas, aos olhos do ego, um espinheiro é melhor do que um deserto.  O que não se percebe é que o espinheiro não protege, provoca  isolamento; o espinheiro não embeleza, torna a alma sombria; o espinheiro não frutifica, conserva árido o solo devastado do coração.



Assim, leitor, mais uma vez a máscara cai. Aquilo que o ego mantinha como justo e adequado é enfim percebido como uma solidão sombria e árida. Novamente o desejo de reparação vem e faz nascer a culpa. Esse tipo de vegetação é pequeno, feio e sem graça, um quase nada sobre o solo do coração devastado. Porém, leitor, suas raízes profundas atacam o ser e minam suas forças, provocando doenças e desequilíbrios orgânicos e psíquicos de ordem variada. Eu diria que é o pior dos males que pode brotar em nós, pois se enraíza de tal forma que se torna difícil de arrancar. O ego, cumprindo seu importante trabalho de tentar nos manter minimamente funcionais, pega outra máscara e assume novo personagem com aparência amorosa, às vezes suave, entretanto carregada com as marcas da dor. Entra em cena uma vítima que busca incessantemente a compaixão daqueles que estão à sua volta. Às vezes, essa plantinha permanece ligada à pessoa pelo resto da vida onde o coração sofreu a devastação e, lamentavelmente pode ainda marcar sua presença em outras vidas que virão.

A culpa é uma terrível erva daninha que impede o nascimento de outros sentimentos que sejam mais plenos e espontâneos. Se por um lado ela se alimenta das forças de seu hospedeiro, por outro depende da atenção que conquista dos outros. Para chamar a atenção, lança mão de artifícios que prejudicam ainda mais aquele que a carrega: baixa auto estima, menos valia, melancolia, entre outros, são os elementos que darão o tom, a cor sem graça, lamentosa dessa vítima.

Existem também aqueles que tentam compensar a tudo e a todos pela sua imensa culpa.  Colocam a máscara da benemerência, da simpatia extremada e fazem um esforço hercúleo para conquistar o bem querer de todos ao redor. Usam uma máscara colorida e atraente, mas que não deixa de ser o que é: uma aparência e, como toda máscara, pode cair a qualquer momento e mostrar o terreno devastado daquele coração.

Portanto, leitor, vingança e culpa são as partes que compõem o cenário de um coração devastado.

E o que aconteceu com Medeia depois de sua vingança, leitor?

Ela fugiu para Atenas, onde se casou com o rei Egeu e teve um filho, Medo.  Passados alguns anos, Medeia volta para a Cólquida em busca do perdão de seu pai Etes, levando seu filho consigo. Etes, no entanto, fora deposto pelo seu irmão Perses.  Medeia e Medo, então, matam Perses e Medo se torna rei da Cólquida.

Observe, Leitor, que apesar do caminho de Medeia ainda ficar carregado com mais um assassinato com o objetivo de reparação, há um detalhe importante que mostra a direção que devemos tomar para recuperar um coração devastado e torná-lo solo fértil e pleno de vida novamente.

A poesia da música Insensatez, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, conta exatamente essa história, de um coração devastado, trazendo a resposta:
 

Ah, insensatez, que você fez,

Coração mais sem cuidado...

Fez chorar de dor o seu amor,

Um amor tão delicado...

Ah! Porque você foi fraco assim?

Assim, tão desalmado?

Ah! Meu coração, quem nunca amou,

Não merece ser amado.

 

Vai meu coração, ouve a razão,

Usa só sinceridade.

Quem semeia vento, diz a razão,

Colhe sempre tempestade.

Vai, meu coração, pede perdão!   

Perdão apaixonado!

Vai, porque quem não pede perdão...

Não é nunca perdoado.

 Pois é, leitor.  A solução está no perdão. Perdão a si mesmo, por não se conhecer o suficiente e permitir-se usar máscaras; perdão por permitir-se depositar no outro a expectativa de sua felicidade. Perdão ao outro que, sendo um espelho, fez a mesma coisa.  Perdão a si mesmo, pelo espinheiro agressivo que deixou brotar, disseminando farpas venenosas e destruidoras. Perdão àquele, que também devastado, lhe dirigiu sua vingança buscando justiça e reparação. Perdão a si próprio pela autodestruição promovida pela culpa vampira de suas energias e perdão ao outro pelo mesmo degradante motivo. Perdão!
 


Esse é o pesticida que elimina o espinheiro da vingança e seca as raízes da culpa. É o remédio para as moléstias do corpo e da mente, fundamentadas na culpa. É o fertilizante que transformará o solo árido do coração devastado em imenso campo florido onde se poderá, enfim, construir e construir e construir inúmeras moradas de amor genuíno.

 

Ralmer.

Um comentário:

  1. Gostei tanto.......!!!! muita sensibilidade!!!

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